Artur Oliveira Ribeiro: O carteiro cesteiro

Artur Oliveira Ribeiro: O carteiro cesteiro

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Conhecido como Artur Cesteiro, numa referência ao seu oficío e à paixão que sempre votou à arte da cestaria, este artífice, já retirado da atividade, marcou presença em inúmeras feiras e mostras dentro e fora do concelho, sendo um dos representantes desta arte praticamente em vias de extinção.
A par da arte de cesteiro, Artur Ribeiro exerceu durante 32 anos anos a profissão de carteiro, sendo conhecido nalgumas freguesias do concelho também como o “Artur Carteiro”.
Artur Ribeiro herdou a mestria e a paixão pela profissão do seu pai, ele também um conhecido cesteiro no concelho.
“Herdei a arte do meu pai que era, também, um exímio cesteiro. Tinha uma vasta clientela e fazia cestos para vindimas. Mas antes de trabalhar com o meu pai, estive dois anos no meu padrinho e depois as minhas irmãs queriam que fosse trabalhar com os meus cunhados como pauseiro, mas acabei por optar por ser cesteiro”, disse, salientando que o seu pai era um homem talentoso a quem não faltava trabalho, tinha uma pequena oficina em casa onde trabalhava o vime e fazia as cestas para as vindimas.
“Não tinha mãos a medir. Fazíamos cestos novos e consertávamos os velhos. Muitos agricultores iam a casa do meu pai encomendar muitos cestos novos. Eu e o meu pai corríamos muitas freguesias”, frisou, sustentando que à, data, a arte da cestaria era um negócio em franco desenvolvimento e existiam cesteiros em Boim e em Nespereira.
Após a tropa, Artur Ribeiro estabeleceu-se por conta própria em Alvarenga, herdando o saber acumulado e fazendo uso da sua vasta experiência em transformar o vime em verdadeiras peças e obras de arte.

“Levava os cestos para os clientes na moto”

Por influência de um conhecido e amigo carteiro, enveredou, mais tarde, por trabalhar como carteiro, mantendo na mesma a ligação à arte da cestaria.
“Corri o Porto todo, Matosinhos, Marco de Canaveses, Baião, Amarante e outros concelhos. Passei noites inteiras a trabalhar para cumprir com as encomendas e apesar do cansaço ia trabalhar no mesmo dia para os correios. Levava os cestos para os clientes na moto que tinha. Cheguei a transportar sete a oito cestos. Encostava a mota perto dos correios, o chefe dos correios sabia que além de carteiro tinha esta paixão pela cestaria, mas nunca me disse nada nem me chamou a atenção porque sabia que era bom funcionário e nunca deixei de cumprir com o meu dever e as minhas obrigações”, adiantou, sublinhando que as condições para os cesteiros nunca foram fáceis e o modo de vida era também difícil, o que obrigava a que tivesse de fazer um esforço redobrado para cumprir com todas as suas obrigações.
Quanto aos cestos que fazia, Artur Ribeiro destacou que tal como o pai nunca lhe faltaram encomendas, fazendo cestos de vários tamanhos e feitios.
“Cada cesto levava duas horas e meia a três horas. Com vara de salgueira ou vime. Cestos grandes fazia-os com vara de salgueiro”, expressou, salientando que apesar da sua idade e de já não exercer a atividade, ainda há pessoas e clientes antigos que o procuram.
“A idade avança, os diabetes e os problemas nas mãos não me permitem continuar a trabalhar, apesar da paixão pela cestaria permanecer”, concretizou, acrescentando que a pedido da vereadora do Turismo da Câmara de Lousada, Cristina Moreira, chegou inclusive a fazer cestos em miniatura para oferecer aos turistas e cidadãos de outros concelhos que costumam visitar o concelho e acorrer às feiras tradicionais do município, onde o artesanato e os produtos locais são normalmente presença assídua.
Artur Ribeiro ficou, também, conhecido pela presença em certames e mostras de artesanato, quer no concelho de Lousada quer noutras localidades, onde, várias vezes, aproveitava para fazer cestaria ao vivo.
“Fiz vários anos a Feira Agrícola do Vale do Sousa, Agrival, em Penafiel, em Lousada, fiz a Feira do Século XIX em Nespereira, participei em várias mostras de produtos locais e de artesanato em vários pontos do país, Vila Velha de Ródão, Tavira, entre outras”, acrescentou, recordando que o facto de fazer cestaria ao vivo era sempre motivo de curiosidade para as pessoas que não resistiam em parar no stand para o ver a trabalhar.
Questionado sobre a importância da cestaria no concelho e a importância cultural desta atividade para a identidade do concelho, este artesão lamentou que, presentemente, quase já não existam cesteiros no concelho e na região e que os mais novos não tenham apetência para aprender.

“Não é possível sobreviver apenas da cestaria”

“Ainda tentei incutir no meu filho o gosto por esta arte, mas ele acabou por ir para carteiro. Tal como o pai. Hoje já não é possível sobreviver apenas da cestaria. Se não fossem os correios não teria conseguido ter a reforma que tenho hoje. Conheço alguns cesteiros do meu tempo que nunca tiveram outra atividade e que vivem com dificuldades, com reformas baixas”, confessou, avançando que Lousofícios – Cooperativa de Artes e Ofícios de Lousada que tinha como objetivo a produção, divulgação e comercialização do artesanato de Lousada foi um projeto emblemático para o concelho e a região, mas que acabou por se eclipsar.
“Na altura, recordo-me, era um projeto que todos acreditavam tinham todas as condições para potenciar o setor, dar uma nova dinâmica aos artesãos, chegou a integrar bastantes artífices, mas a falta de apoios para dar continuidade ao projeto que também tinha uma vertente de formação e informação dos cooperadores e do público em geral na área das atividades artesanais precipitou o seu fim”, asseverou, assumindo que faltaram mais apoios aos artesãos que apesar de terem lá os seus produtos expostos sentiam dificuldades em escoá-los.
“Conheço lojas de artesão que são apoiados pelas respetivas autarquias que expõem os seus produtos e vão para as feiras”, reforçou.

Em 2018 no Festival Tradicional. Este ano foi a primeira vez que não participou numa mostra

“Gostava de deixar parte do conhecimento que tenho aos mais novos”

“Recordo-me que a abertura Lousofícios – Cooperativa de Artes e Ofícios de Lousada foi assinalada com pompa e circunstância, mas depois devido às circunstâncias e às dificuldades dos artesãos pagarem uma renda, acabamos por sair”, concretizou.
Artur Ribeiro chegou, também, a dar formação e a ser convidado para ir às escolas ministrar algum do seu conhecimento acumulado aos mais novos.
“Cheguei a ir à Secundária de Lousada dar formação. Apesar da minha idade, gostava de deixar parte do conhecimento que tenho aos mais novos. Acho que o caminho para salvaguardar a cestaria, o que a atividade representa, tem de passar pela formação e pela qualificação dos artesãos”, sustentou.
Além de cesteiro e carteiro, Artur Ribeiro foi o primeiro presidente da Junta da freguesia de Alvarenga logo a seguir ao 25 de Abril, tendo aberto inúmeras estradas na freguesia.
“Abri ruas em terra batida que não permitiam a circulação de trânsito e graças à minha intervenção ficaram transitáveis”, anuiu, declarando ter sido, também, um dos responsáveis pela construção do cemitério de Alvarenga, já no mandato do Sr. Ferreira que foi, também, presidente da Junta de Freguesia de Alvarenga, e fundador da Associação os Amigos de Alvarenga.
Sobre a dinâmica que o concelho tem hoje, Artur Ribeiro reconheceu que nos últimos anos, o município desenvolveu a olhos vistos, sendo uma referência na região.
“O presidente Jorge Magalhães deu um contributo imenso para esse desenvolvimento e mesmo as juntas de freguesia, com a agregação, deram um salto qualitativo. Por outro lado, temos um presidente da Junta esforçado, dinâmico e sempre atento às necessidades das pessoas”, confirmou.
Presentemente Artur Ribeiro frequenta o Movimento Sénior de Silvares, projeto que tem como propósito promover o convívio entre idosos, contribuindo para o reforço da autoestima, da promoção das sociabilidades.
É neste espaço que participa em diversas atividades, convive com os restantes elementos do Movimento Sénior e experimenta estilos de vida mais saudáveis, sempre com o objetivo de fortalecer a sua autoestima e ter uma melhor qualidade de vida.