Cais Cultural de Caíde de Rei: uma década dedicada à Cultura

Cais Cultural de Caíde de Rei: uma década dedicada à Cultura

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Decorreu, no passado sábado, um jantar de gala para assinalar o décimo aniversário do Cais Cultural de Caíde de Rei. Uma noite de lembranças, emoções, surpresas e homenagens, que marcaram todos os presentes.

O jantar contou com a presença de cerca de 150 pessoas, entre eles o vereador da Cultura, Manuel Nunes, e também os vereadores Leonel Vieira e Sandra Silva. O fado e o teatro animaram o serão.

O Cais Cultural nasceu do antigo cais de mercadorias da Estação de Comboios de Caíde há dez anos e hoje é um centro de convívio, cultura e lazer. O projeto é gerido pela associação Albano Moreira da Costa, uma associação sem fins lucrativos.

Luis Peixoto, presidente da Associação, abriu a cerimónia relembrando a primeira vez que o espaço foi aberto ao público, em 2008. “Hoje, com novas caras e novos projetos, o cais é merecedor de uma noite especial para assinalar esta data”, disse. Agradecendo a presença de todos, lamentou que o espaço tenha sido insuficiente para receber mais pessoas. Considerou, no entanto, um “bom sinal perceber que as pessoas querem e aderem às iniciativas”. “Queríamos meter toda a gente, mas tentamos dar prioridade àquelas pessoas que nos foram acompanhando ao longo destes 10 anos, àqueles que estiveram na criação da Associação, na criação do Cais Cultural, e estão como voluntários em diversas iniciativas. E, é claro, àquelas que vão participando das nossas atividades. Basta olharmos uns para os outros para perceber que são caras conhecidas”, explicou.

Luís Peixoto tem 26 anos, é licenciado em Criminologia, com especialização em Ciências Médico Legais. Desde 2010 que está ligado ao Cais Cultural de Caíde de Rei, altura em que assumiu a presidência do conselho fiscal. Em 2012, tornou-se presidente da direção, cargo que ocupa atualmente.

Este ano o Cais Cultural assinala uma década de existência dedicada à cultura. Nesta entrevista, Luís Peixoto faz um balanço do trabalho desenvolvido ao longo dos anos, fala-nos dos projetos que estão em desenvolvimento e das expectativas para o futuro.

YES: O Cais Cultural de Caíde de Rei festejou “10 anos a criar cultura!”. Descreva os principais momentos deste percurso.
Luís Peixoto (LP): “10 anos a criar cultura” – foi este o slogan que adotamos para representar estes 10 anos de atividade. A abertura do Cais Cultural foi um marco importante na rota cultural não só para Caíde de Rei, mas também para Lousada. Com cerca de 40 atividades anuais, o ritmo acelerado levou à necessidade de reinventar atividades, projetos e adaptações aos usos e costumes da população.

Assim sendo, podemos destacar algumas atividades emblemáticas e a criação de alguns projetos de maior relevância. Nas atividades, destacamos a Sopa do Cais, a Festa do Sarrabulho Doce, as Noites da Francesinha, o Festival de Teatro Amador de Caíde de Rei (FESTAC) e a comemoração dos 140 anos da chegada do comboio a Caíde, com o lançamento de um livro da nossa autoria. Nos projetos, damos ênfase à criação do Grupo de Teatro Linha 5; à Biblioteca do Cais e ao seu Clube de Leitura “Lê de Letra”; ao Ocup’arte no Cais (Centro de Ocupação para Adultos); à Confraria do Sarrabulho Doce de Caíde de Rei (o projeto mais recente em desenvolvimento) e à criação do grupo de caminhadas (CAISminhadas). Para além disso, colaboramos com outras instituições/projetos, como participações no Mercado Histórico de Lousada e o Biofest.

YES: É fácil “criar cultura” numa freguesia como Caíde de Rei?
LP: Tal como dizia Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se, depois entranha-se” e é assim que nos sentimos quando começamos um projeto. Tentamos ao máximo descentralizar a cultura do centro de Lousada e, por isso, procuramos proporcionar bons e diversificados espetáculos. No entanto, não podemos esquecer que a maioria do nosso público é residente em Caíde, mas isso, por si só, não dificulta a criação de cultura nesta freguesia.

Felizmente, a cooperação com outras instituições fora da freguesia tem permitido aumentar o número de visitantes que não são de Caíde.

YES: Consegue dizer-nos quantas pessoas passaram pelo Cais de Caíde durante estes 10 anos?
LP: Atendendo à média de atividades que foram sendo desenvolvidas anualmente e à média de participantes, acreditamos que nestes 10 anos passaram pelo Cais Cultural cerca de 20 mil pessoas.

YES: Caracterize-nos o atual momento da Associação.
LP: Neste momento, a associação está muito bem e recomenda-se. Felizmente, estamos rodeados de sócios, voluntários e amigos que nos dão garantias de futuro.

A comemoração destes 10 anos é a prova da nossa vitalidade. Não só revemos os 10 anos passados, como traçamos os 10 anos futuros. Temos uma série de projetos recentes que nos fazem perspetivar um futuro preenchido: o Grupo de Teatro Linha 5 está na fase de maior expansão e com o maior número de espetáculos agendados para itinerância no Norte do país e a criação recente da Confraria do Sarrabulho Doce vai permitir o desenvolvimento desta iguaria e assim promover os sabores, os costumes da nossa região.

YES: Considera que os principais objetivos foram atingidos?
LP: Os principais objetivos da associação estão a concretizar-se. Ao nível cultural, estamos numa fase crescente, justificada pelo aumento do número de visitantes, pelo aumento do número de sócios, pelo aumento de cedências do nosso espaço para outras atividades e pelas boas relações que vamos mantendo e criando com outras instituições.

Ao nível de infraestruturas, temos feito os melhoramentos possíveis. Neste momento, à exceção da colocação de um telhado novo, praticamente todos os objetivos foram cumpridos: temos um palco com as condições adequadas de som e luz e fizemos pequenas obras nas diferentes divisões do espaço.

Além disso, adquirimos uma carrinha de 9 lugares que facilita as deslocações do grupo de teatro e a organização de eventos. Sentimos que a população tem aumentado a sua participação nas atividades e que tem aumentado a nossa visibilidade no concelho e até na região.

YES: Enquanto presidente da associação, quais têm sido os principais desafios ao longo destes anos?
LP: O primeiro grande desafio quando assumi a presidência da associação foi a angariação de fundos, pois não havia qualquer valor em caixa. Tornar as nossas atividades autossustentáveis foi desde cedo uma preocupação, bem como o rigor e transparência no que diz respeito a movimentos financeiros. Sendo esta uma associação sem fins lucrativos, estamos sempre atentos a possíveis receitas que possamos obter, quer a nível de candidaturas quer em patrocínios, sempre com o objetivo de aumentar a qualidade e a dimensão do espaço e das atividades, promovendo sempre o Cais Cultural no exterior. De salientar também que um grande desafio é manter sempre vivo o espírito de voluntariado e amizade entre todos os que colaboram gratuitamente connosco.

YES: De quem é a propriedade do Cais de Caíde? Quais são os principais problemas em relação às instalações?
LP: O Cais é propriedade da empresa “Infraestruturas de Portugal”, pelo que é paga pela associação uma renda pela utilização do espaço. O principal problema é o telhado do edifício, que é o mesmo desde a construção. No período de inverno, sofremos com o frio e algumas infiltrações de água e no verão é demasiado quente. No entanto, a associação não tem fundos para conseguir levar a cabo uma obra dessa dimensão e ficamos “de pé atrás”, pelo facto de ser um espaço arrendado.

YES: Essa é a principal dificuldade da Associação?
LP: A principal dificuldade é a utilização do espaço em dias de condições atmosféricas adversas, principalmente no inverno. É demasiado frio no interior e até pode pingar em dias de chuva. Um telhado novo resolveria o problema. Outra dificuldade é financeira, o que é comum no meio associativo. Vamos conseguindo suportar todas as despesas associadas ao espaço, no entanto ficamos muito limitados quando pretendemos contratar algum grupo ou serviços para proporcionar atividades diferentes, acabando por estar sempre dependentes da gratuitidade e disponibilidade de grupos e amigos conhecidos.

YES: E os maiores desafios para o futuro?
LP: A nível das instalações, o grande desafio será conseguir a colocação de um telhado novo no edifício. Além disso, queremos tornar o Cais Cultural de Caíde de Rei num espaço cultural de referência na região, com eventos de destaque, como a Festa do Sarrabulho Doce, que queremos tornar num certame de promoção deste doce a nível nacional; tornar mais visível o nosso festival de teatro amador, com a possível participação de grupos das ilhas e Espanha.

YES: Está satisfeito com o apoio dado à Associação pelas entidades institucionais, nomeadamente Junta de Freguesia e Câmara Municipal?
LP: Com o Município de Lousada temos uma ótima relação, pois somos convidados a participar em diferentes eventos da sua responsabilidade e, além disso, dentro das possibilidades, atribuem-nos um pequeno subsídio anual. Sempre que oportuno, somos visitados, principalmente pelo Sr. vereador da Cultura e sentimos que estão a par do nosso trabalho. Além disso, temos uma parceria com a Biblioteca Municipal no que toca à dinâmica da nossa biblioteca. Relativamente à Junta de Freguesia de Caíde de Rei, apenas serve de intermediária no que toca a pagamentos, pois o contrato de arrendamento do Cais está em seu nome. Agradecemos o facto de nunca ter colocado qualquer entrave a esse contrato. No entanto, face à visibilidade que damos à freguesia nas diferentes atividades que desenvolvemos, merecíamos outro reconhecimento, que não teria que ser obrigatoriamente monetário.

YES: O Cais de Caíde é uma entidade aberta a todos os cidadãos?
LP: É claro que o Cais Cultural é um espaço aberto a todos. A porta nunca foi nem será fechada a ninguém, independentemente da cor partidária e do estatuto social. Mas, para meu lamento, e pelo facto de eu estar ligado a um partido político, sei que há pessoas que veem nisso um obstáculo e acabam por dizer mesmo que somos uma associação partidária. Não são comentários desses que nos derrubam.

YES: Considera que a comunidade da freguesia encarnou o espírito que a Associação pretende com as suas atividades?
LP: Felizmente, com o passar dos anos, há mais caídenses a frequentar a nossa casa e as nossas atividades, percebem que são as atividades a nossa principal fonte de receita e aderem. No entanto, há também cada vez mais pessoas de fora da nossa terra a visitar-nos. Sei bem que há muitos caídenses que nunca entraram no Cais Cultural.

YES: Qual foi o sentimento que o dominou nesta celebração dos dez anos?
LP: Foi uma noite muito especial. Reconhecimento, agradecimento, emoção e futuro são palavras que retiro daquela noite.

YES: Quantas pessoas estiveram presentes?
LP: Neste jantar de gala estiverem perto de 100 convidados. Mais teríamos, mas o espaço já não permitia.

YES: Nesta gala, foram homenageadas algumas pessoas relevantes para a história deste projeto. Poderia destacar alguma delas?
LP: Destaco António Meireles, o criador do Cais Cultural; António Cunha, o nosso principal patrocinador, e Patrícia Queirós, a criadora do grupo de teatro Linha 5 e que colabora com a instituição desde o primeiro dia até hoje.

YES: Deixe uma mensagem final.
LP: É preciso apoiar e valorizar a cultura de proximidade, porque só juntos criamos cultura. O Cais Cultural de Caíde de Rei está de portas abertas a projetos, iniciativas, grupos e novos sócios.