Há cerca de um ano escrevi sobre algumas das conquistas e “ não conquistas” que o “25 de abril” proporcionou. Recordo, que na altura não apelidei esse artigo como agora o fiz, mas abordei a “liberdade” dos pais não desejarem vacinar os filhos, a “liberdade” de cada vez mais se desvalorizar Amizade e a “liberdade” de se continuar a ter tiques do anterior regime, nomeadamente na missão da justiça.

Transposto mais um ano, infelizmente continua a ser oportuno aludir a essas e a outras “liberdades” resultantes da revolução de 1974, sem antes conceber uma simples declaração de interesses. Há muitas e boas razões para ter existido essa mudança de regime autoritário e castrante da autonomia humana, pois claramente temos menos mortalidade infantil, mais alfabetismo, mais licenciados, mais e melhor rede viária, mais pluralidade de opinião, mais cultura, etc. Não me revejo no radicalismo de direita ou de esquerda, identifico-me com os ideais da social-democracia, reconheço em mim o prazer de me poder exprimir com liberdade (com respeito pela do próximo), falar sem temores (por vezes até um pouco alto) e insurgir-me contra aquilo que me revolta, que é iníquo e atroz. Perante isto, evidentemente teria dificuldades em viver em ditadura comodamente e só por isso, para mim foi muito bom que tivesse acontecido a revolução dos cravos.
Há, no entanto, conjunturas atuais que me deixam bastante revoltado e desconfortável. Voltando ao incómodo que seria para mim viver com privação de liberdade de opinião, comparo-me de certa maneira ao meu avô paterno, um fafense de “gema” que se insurgia contra a “gamela”, como ele apelidava o sistema político da época. José Fernandes, homem de baixa estatura física, mas de altíssima estatura moral e conciliadora, tinha nos mais pobres os seus mais ferozes defensores. Teve, no entanto, alguns inimigos, angariados pela sua grande independência, por inveja e por ele constantemente vociferar contra o regime. Contudo, os seus amigos de Fafe e alguns de grande influência, entre os quais o Dr. Parcidio de Matos e o clero local (que ele tanto ajudava), nunca o deixaram padecer muito. Claro, que fora de Fafe era mais complicado, a minha tia não entrou à primeira tentativa na escola do Magistério Primário de Braga, pois acusaram-na de ser filha de um comunista! Meu avô nunca se meteu em política e comentava, que esta não lhe interessava, apenas desejava sentir liberdade e testemunhar menos pobreza. Felizmente tinha bons recursos económicos e ajudava muitos que iam a tribunal, alguns até como fiador. Isso conferia-lhe popularidade, mas ao mesmo tempo inveja e vários infortúnios obrigando-o também a ir a tribunal diversas vezes. Partilho apenas um apontamento célebre, numa dessas idas a tribunal. O juiz trocista e irónico interpelou-o, comentando: “o senhor ajuda toda gente, paga as custas do tribunal, até parece o Zé do Telhado”. Retorquiu o avô: “saiba o Sr. Dr. Juiz que o Zé do Telhado rouba para dar, mas eu dou do que é meu”.
Auxilio-me destas referências ao meu avô, para também eu me insurgir contra a “gamela”, não verdadeiramente deste governo (pelo menos para já), mas de outros, que foram constituídos por gente fraca, reles e que têm vivido à “nossa custa” roubando o erário público, com ligações ilícitas à banca, pagando esta chorudas “luvas” a políticos, empresários e outros influentes. Temos uma economia balofa e sustentada em dinheiro fácil, muitas vezes para alimentar caprichos. Obrigatoriamente, nos próximos tempos terá de ser bem controlada e aferida, provavelmente com outros “governadores” do Banco de Portugal.
Como também referi há um ano, os “capitães de abril” fizeram a revolução para termos um país mais livre, mais justo, mais próximo do ideal de abril. Quarenta e quatros anos depois temos ainda um país desigual, com demasiada pobreza, falhando com os mais frágeis e desprotegidos. Afinal a “revolução” não ocorreu só com os nossos avós ou com os nossos pais, terá que continuar a ser sustentada por todos nós, pois algumas das “liberdades” obtidas têm sido prejudiciais a Portugal e outras postas em causa.
“Renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem. A liberdade pode ser conquistada, mas uma vez perdida jamais será readquirida”.
Rousseau








