Ser diferente e fazer a diferença – 2.ª parte: Carlos Cardoso

Ser diferente e fazer a diferença – 2.ª parte: Carlos Cardoso

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Carlos Cardoso, com 34 anos de idade, natural de Vilar do Torno e Alentém é deficiente motor desde Maio de 2001, fruto de um acidente rodoviário. Profissionalmente é Administrativo na Clínica Médica Arrifana de Sousa, e sendo praticante de basquetebol adaptado, tendo mesmo sido galardoado na Gala do desporto pela sua participação como atleta da seleção nacional.
YES: É importante para si estes prémios?
Carlos Cardoso (CC): É a primeira vez que fui galardoado em Lousada, já tinha sido em Paredes, pois jogo no clube do concelho. É um incentivo. Para uma pessoa que luta para esta especialidade, basquetebol adaptado, e representar Portugal para mim foi um prazer… é um gosto e foi sempre um patamar que eu quis conseguir. É muito importante para quem não conhece a modalidade adaptada saber que existe. Não são só as pessoas ditas normais que estão na seleção as pessoas com deficiência também estão.
YES: O que mudou a sua vida com esta deficiência?
CC: Foi no dia 10 de junho de 2001, na freguesia de Aveleda, não bati em ninguém, ia devagar, a 20km hora, caí para o lado. Não sei o que se passou, não conseguiram explicar o que aconteceu. Nos primeiros meses doeu muito entrar na realidade, era um jovem tinha 18 anos. Ainda não era casado. Mudou muito no sentido que tive que começar tudo do zero. Como se fosse uma criança, não digo na totalidade, mas como se fosse uma criança. A adaptar-me a andar numa cadeira, enquanto uma criança tinha que começar a andar.
YES: Como recebeu a noticia no hospital?
CC: A primeira reação foi, deve estar a brincar comigo. A primeira coisa que uma pessoa nesse momento pensa, falo por mim, é porque não morremos logo. Pois tinha uma vida normal, praticava desporto. Foi um choque. Foi uma coisa momentânea. Ao fim de um mês comecei logo e não parei no tempo. Tentei sempre sózinho e não precisei de ajuda de um profissional, do género de um psicólogo ou psiquiatra, consegui ultrapassar tudo sozinho.
YES: O que mudou a sua vida com esta deficiência?
CC: Claro que havia aquelas coisas normais, será que vou conseguir namorar. Mas não me importava, o que queria era continuar a minha vida. O curioso é que não continuei com a mesma namorada, depois disto tive até mais 3 namoradas. ´
O cómico disto é que para quem está de fora diz…coitado não pode ter relações sexuais nem nada, mas isso está errado. É um preconceito das outras pessoas que não é válido, pois o nosso problema  é motor, é físico e se existir vontade tudo é possível.
YES: Sentes muito esse preconceito?
CC: Ainda há muito preconceito nomeadamente aqui no Vale do Sousa, por exemplo Lousada, é uma cidade muito jovem. E os mais jovens já não tem esse pudor, são capazes de olhar, mas não ignoram, olham mas de forma normal. Mas se for uma cidade com pessoas mais velhas, como o caso de Paredes ou Penafiel, as pessoas já ficam a olhar e a pensar coitado. É isso é a pior coisa que as pessoas podem fazer.
Felizmente já não há tanto preconceito. A nossa sociedade mentalmente está evoluída, mas socialmente ainda não.
YES: Quais foram as maiores dificuldades?
CC: A primeira foi arranjar trabalho. Numa das empresas perguntaram-me se tinha carro pois era mais fácil para o deslocamento, e eu disse: se esse é o problema eu daqui a uns dias venho aqui e resolvemos isso. Arrisquei mesmo estando desempregado e comprei um carro. Cheguei lá à mesma empresa e disse que já tinha carro, mas eles disseram que já não precisavam. Eu disse obrigado e sai pela porta fora, frustrado obviamente.
Em 2004, conheci alguém que disse: Não podes porquê? Desde queiras e que tenhas o mínimo de condições podes tudo como os outros. Foi quando comecei a trabalhar na Clínica Arrifana de Sousa. Neste momento, posso dizer que a clínica tem 6 pessoas com deficiência a trabalhar nesse mesmo local. Podem desempenhar qualquer função e ás vezes são melhores e trabalham de forma perfeitamente normal. Temos dois de paralisia cerebral, não é profunda, apenas paralisou os membros, ligeira paralisia. Temos uma miúda que é amputada, com apenas uma mão, e trabalha mais rápido que eu, que tenho duas. É esta a alegria que tenho ter conseguido para mim e para outros. Nunca colocaram entrave na empresa a pessoas como eu.
YES: Como começou a praticar basquetebol adaptado?
CC: Foi em 2005 ou 2006 um colega que me desafiou a praticar desporto, eu desconhecia a modalidade. Ele disse-me que ia gostar e tal… e eu fui a primeira vez e a segunda e o bichinho ficou e foi assim que tudo começou. Ainda pensei como ia fazer com a cadeira, com o tempo tudo mudou. Eu faço coisas que não fazia anteriormente. Treinamos duas vezes por semana. Tentamos sempre nos treinos fazer como se fosse um jogo normal.
YES: Como classifica o concelho de Lousada a nível de barreiras arquitetónicas?
CC: O concelho de Lousada está mais desenvolvido a nível de barreiras arquitetónicas, por exemplo a nível dos cafés, vou lá bebo um café e dá-me a vontade de ir à casa de banho e não tenho como ir. Dou um exemplo, aqui ao lado da câmara de Lousada temos ao fundo um padaria que as casas de banho é no fundo e depois tem um degrau…qual o problema de colocar uma rampa ali. Aqui as autarquias deviam estar mais atentas, não é só nas parte de fora que se têm de preocupar, mas também a nível dos estabelecimentos comerciais. Eu posso estar na rua e ter vontade de ir à casa de banho e não tenho como ir. As casa de banho por norma têm escadas. Aqui em todo lado é assim.
YES: E este dia o que representas para ti…
CC: O dia da deficiência é todos os dias e devia ser relembrado todos os dias, pois é uma pessoa que precisa…já nem falo por mim. As pessoas com deficiência deviam ser recordadas todos os dias ou pelo menos uma vez por semana.

Carlos Cardoso

YES: Tens mulher e um filho… Como é a nível familiar ?
CC: Cada caso é um caso. A minha esposa e o meu filho inicialmente esquecia-se que eu tinha um problema físico…por exemplo…chega-me aquilo que está em cima do armário… e eu pensava deves estar a brincar comigo…e dizia esquece. Mas de certa forma esqueciam-se do problema..e isso é bom. Mesmo o meu filho, não pode jogar à bola comigo com os pés mas com posso usar as mãos. Ele agora tem 10 anos, mas na altura que tinha 4 anos eles começam a ter outra perceção, começam a perceber que não mexo os pés, e fazem algumas perguntas complicadas e nós explicamos o porquê disto e daquilo. Ele quando era mais novinho chegou-me mesmo a dizer…olha pai vamos jogar à bola…e nessa altura eu já praticava desporto. Ele acabou por excluir a dificuldade e arranjou um alternativa. Toda a minha família acaba por interagir comigo normalmente…e isso é fantástico.
No meu caso não há volta a dar, pelo menos por enquanto pois a medicina está sempre a evoluir, mas de qualquer forma eu posso dizer que faço tudo. Neste momento não há nada que eu não posso fazer, eu primeiro tenho que tentar e depois é que digo se consigo ou não. Se tiver que lavar a loiça lavo, cozinho e mudo um pneu se for o caso, se precisar de ajuda peço. Não posso jogar futebol, mas jogo banquete. Não posso jogar andebol, mas posso fazer andebol adaptado. Não posso andar de bicicleta, mas posso arranjar outra coisa para fazer. Só para tentar é que posso saber se consigo ou não, até lá não há nada que eu não consiga.