“Na Vindima de cada sonho, fica a cepa a sonhar a outra aventura e a doçura que não se prova, transforma-se numa outra muito mais doce e pura.” – Miguel Torga
É com esta frase de Miguel Torga, um homem apegado à sua terra e às tradições, que iniciamos este artigo sobre as vindimas, uma atividade agrícola que faz parte da nossa cultura, sendo sem dúvida um dos momentos ricos do nosso outono.
Este ano o tempo antecipou esta tradição: as uvas ficaram maduras mais cedo do que é costume, ganhou a qualidade e também a quantidade. Foi sem dúvida um “bálsamo” para a economia vinícola da região.
Para uma avaliação mais consistente da colheita, estivemos com Francisco Meireles, responsável pela Adega Cooperativa de Lousada.

YES: Verifico a existência de uma iniciativa nova, a “Festa das Vindimas”. Explique-nos em que consiste?
Francisco Meireles (FM): É já no dia 21 de outubro. É mais um convívio com os sócios. No fundo, é reativar uma inciativa que já existiu. Há tempos, havia aqui um género de bailarico das vindimas. Vamos agarrar essa antiga tradição. Será, sem dúvida, uma atividade diferente.
YES: E como decorreram as vindimas este ano?
FM: Foi um ano excecional, um ano de muita quantidade e qualidade. Uma uva perfeita e muito rendimento na produção. Nós, este ano, ultrapassamos os dois milhões de litros, divididos por vinho branco, tinto e rosado. Tivemos o dobro da produção do ano passado.
YES: É uma boa notícia para o futuro da Adega?
FM: É importante um ano como este. O vinho verde felizmente está na moda. Verifica-se isso na exportação, que está a aumentar muito. Nós ainda não reunimos as condições ideias para apostar na exportação, vamos apostar no próximo ano. Mas internamente o consumo (vendas) do nosso vinho tem aumentado muito, mais significativamente a nível dos vinhos engarrafados.
YES: Está em fim de mandato. Pretende continuar?
FM: O nosso mandato está no fim, mas vamos continuar. Este primeiro mandato foi para arrumar a casa, fizemos alguns investimentos, nomeadamente no setor da vinificação, mas agora estamos preocupados com a linha de engarrafamento, que é muito manual, artesanal. Estamos a falar de um investimento avultado, na ordem dos quarenta mil euros. Refiro-me a uma máquina em segunda mão de engarrafamento. Com esta máquina, vamos conseguir melhor qualidade do nosso vinho.
Felizmente, temos uma imagem mais positiva. A Adega está a recuperar os sócios que tinha. Cada vez mais notamos que eles estão a aderir e isso só demonstra que estão a ter de novo confiança na Adega.
YES: Não chegou a ser feita a fusão da Adega Cooperativa de Lousada com a Cooperativa Agrícola, que era uma dos objetivos desta direção. Quais as razões para isso não acontecer?
FM: Tínhamos realmente a ideia de fazer a fusão da cooperativa com a adega, mas, entretanto, houve uma nova possibilidade. A Cooperativa Agrícola comprou trinta por cento do capital social da Adega. Desta forma, cada casa tem na mesma a sua autonomia, resolvendo o problema de liquidez da Adega Cooperativa. Além do problema financeiro, é importante pois é a Cooperativa que fornece todos os produtos fitosanitários aqui para os sócios da Adega. As duas entidades acabam por ser complementares e terem vantagens em conjunto.
YES: Referiu já uma novidade para o futuro. Existem outras?
FM: Uma outra novidade é o aparecimento de um novo vinho. Aproveitado a ligação de Lousada com a camélia, criamos um vinho novo, “O vinho da Senhora”, que será apresentado no Festival das Camélias. É um vinho verde, rosado, talvez um espadeiro. É uma garrafa muito feminina. Penso que vai resultar.
Temos um outro projeto em mente: queremos aproveitar um alambique que está desativado. Temos a ideia de fazer ali naquele local um sítio agradável para provas de vinho, entre outras iniciativas, dado ser um espaço muito agradável.

YES: Fale-nos da quantidade de vinho para o mercado…
FM: Existe quantidade de vinho suficiente para o mercado, o problema é mais na ‘stockagem’, dado o receio de perda após cuba. Estamos a ‘stockar’ cerca de 20% ao ano de vinho, pois não sei como o mercado se comporta. Mas estamos com dificuldade por exemplo com o espumante, que está sempre vendido, e no espumante são precisos 9 meses. Este ano vamos aumentar para os 40% a ‘stockagem’ na produção.








