A vindima para lá do lavar dos cestos

A vindima para lá do lavar dos cestos

COMPARTILHE

Assim como o verão está para as festas e as romarias, o início do outono está para a abertura da época das vindimas. É chegada a altura de perceber se o trabalho de um ano inteiro vai ou não dar frutos. As uvas estão prontinhas para serem colhidas das videiras, altura de festa e convívio, para depois produzir o vinho do ano. Integrar a equipa de uma vindima é uma experiência que fica na memória. São os seus pés que vão ajudar a extrair o néctar da uva ao pisá-la, a etapa final de uma verdadeira comemoração dentro e à volta dos lagares. Uma tradição portuguesa que, apesar de ter acompanhado a evolução dos tempos, em alguns aspetos ainda é o que era. As vindimas são um verdadeiro marco da etnografia portuguesa e conhecê-las e participar do seu processo é algo que se deve fazer pelo menos uma vez na vida, quanto mais não seja para fugir à rotina do dia-a-dia e reunir a família e amigos em torno deste ritual anual.

vindima-casa-da-barria

A azáfama é grande em todos os locais onde é feita a colheita da uva, seja de uma forma mais tradicional ou mais moderna. A época das vindimas torna estes espaços verdadeiros templos do vinho, dignos de serem conhecidos pelos seus apreciadores.

O Yes Lousada esteve em Cernadelo, na Casa da Barria, e em Sousela, na Quinta de Lourosa, para dar a conhecer todo o processo envolvente e as diferenças visíveis entre a vindima tradicional e a moderna.

A Casa da Barria, situada na antiga freguesia de Cernadelo, foi construída em 1750 e tem cerca de 3 hectares de vinha (2 hectares tradicionais e 1 hectare mais moderno). Aqui procura-se manter a tradição e na casa da proprietária, Glória Carvalho, deparamo-nos com Luís monteiro, Fátima Teixeira, Natália Tomaz [cidadã Galega], Manuel Silva e José Magalhães, todos de calções e calças arregaçadas dentro dos lagares (que depois vão encher 14 pipas de vinho), a pisar as uvas colhidas, num processo que decorre durante cerca de duas horas e meia, uma forma que, segundo os vindimadores, torna o vinho “muito melhor, com muita mais cor e mais bonito. Da forma antiga, o vinho fica mais incorporado”, destacaram. Mas recuemos um pouco: antes da pisadura, neste local, as uvas são colhidas das ramadas, que estão a cerca de seis metros de altura, e dos bardos. É o trabalho de um ano que começa aquando da realização da poda, que é feita antes do início de março. Depois vem a sulfatação, mas Luís Monteiro partilhou uma ‘estória’ um tanto curiosa sobre o segredo da poda. “Nenhum. Não há qualquer tipo de segredo, aliás a poda até foi ‘inventada’ por um burro [disse, sorridente]. Sim, a poda foi descoberta por um burro… [e depois lá contou a história da poda]. Segundo dizem os antigos, havia as vides e um burro comeu as pontas da vide e no ano seguinte deu ainda mais… daí a tradição de cortar as vides”, explicou, rematando: “a vide por ela crescia muito e dava pouca produção, mas o burro comeu as pontas e ela ficou com muita mais produção. Então o dono do burro pensou… Ei lá…. Vamos começar a cortar a ver se fica melhor. E assim foi!”

Embora sem os contornos de festa dos tempos passados, as vindimas de hoje continuam a aliar uma forte componente de convívio ao seu trabalho incontornável. “Ainda há essa tradição, mas já não como era antigamente. Ontem à noite tivemos aqui música e tudo. Temos de nos divertir de alguma maneira. Estes cerca de quatro dias de vindima são de festa e alegres, onde vemos o trabalho de um ano inteiro a ser rentável”, explicou Luís Monteiro, revelando depois os passos da sua execução. “Vindimámos e transportámos em tratores, mas antigamente os baldes e cestos vinham às costas. Depois chega ao ralador de uvas e mais tarde estamos entre duas a duas horas e meia a pisar a uva para dar cor. Quando fermenta é feito o vinho, que vai passar para as cubas”, explicou o trabalhador, muito resumidamente.

Glória Carvalho, proprietária da Casa da Barria, começou por explicar que “a pouca chuva que caiu recentemente foi benéfica para o vinho. Porque estas uvas no início de agosto ainda estavam verdes. A chuva faz com que seja criado mais melaço no bago da uva, tornando-a mais doce. Se apenas contar com o calor ficará azeda, uma vez que precisa de humidade para ganhar doçura, o chamado melaço”, referiu.

A Casa da Barria foi restaurada há cerca de 15 anos, e uma casa e os seus mais de 200 anos de história não podem ser resumidos de uma só vez. Contudo, a proprietária partilhou algumas lembranças. “Bebedeiras? Isso havia todos os anos, o meu pai e o meu tio eram muito malandros e então andavam sempre atrás do pessoal e era sempre vinho… Depois como o vinho era muito bom, as pessoas bebiam aqui”, disse por entre sorrisos. E continuou: “Mas a verdade é que as pessoas vinham pela comida. Não queriam dinheiro. Vinham pedir ao meu avô para os deixar vir à vindima só pelo que aqui comiam, porque aqui foi sempre uma casa farta”, destacou, terminando depois em grande com o desfile das histórias.

“Havia um caseiro que morava numa das nossas casas que um dia saiu do lagar… Chegou a casa e queria ir para a cama daquela forma. E a mulher dele perguntou-lhe: oh homem, para onde tu vais? Ao que ele lhe respondeu: eu amanhã volto para lá, porque hei de ir lavar as pernas, se volto para lá amanhã?”, partilhou, com animação.

Os planos de Glória Carvalho poderão passar pela construção de uma adega, mas primeiro é preciso avaliar os resultados. “Já fizemos alguma vinha aqui. Vamos fazer outra vinha acolá e se isto começar a dar frutos provavelmente poderemos fazer uma adega, uma coisa já mais moderna. Contudo, se virmos que não dá, vamos ter de cortar tudo e fazer outra coisa, porque infelizmente, às vezes, o investimento não justifica e este ano que passou correu muito mal. Vendi o vinho muito, muito barato”, lamentou.

Por Elisabete Leal com Manuel Pinho